sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Madrugada fria no Cambuci, cheiro de queimado

O dia tinha sido difícil. Se arrastando debaixo do sol e respirando ar seco, ele quebrou várias esquinas do bairro em busca de compradores. Entre o Tamanduateí e o Lavapés, cruzando o Largo, avistou senhoras carregando sacolas, trabalhadores apressados, moradores de rua. Nenhum deles se interessava pelo produto. Exausto, voltou pra casa remoendo a frustração. Cabeça a mil, pensamentos misturados, os diálogos e intervenções da rua martelavam:

- Aí, grande, na volta me arruma uns trocados?

- Eu não me lembro de ter passado mal, mas acordei no hospital, com ele bravo culpando a bebida.

- Ali só trabalha mulher de boate, cara, precisa ver as roupas que elas usam.

A noite passou ligeira, e a madrugada nem pedia desculpas. Sem sono, mas travado pelas doses de benzodiazepínico, ele procurava vencer o frio tomando café coado. O cheiro de queimado das duas da manhã, pontual, apareceu e tomou o ar como sempre acontecia; era um lembrete de que a vida seguia lá fora de alguma maneira. Prendeu a respiração e seguiu divagando: o novo dia já estava lá sem o antigo ter sido superado.

Trilha: São Paulo Underground - Beija Flors Velho e Sujo